Tendo que passar por momentos bastante difíceis no que diz respeito à saúde, Ozzy Osbourne precisou adiar todos os shows que faria em 2019 devido a uma lesão ocasionada por uma queda, isso sem falar que ele já se recuperava de uma pneumonia. E não é surpresa nenhuma que o cantor fora diagnosticado com Mal de Parkinson, o que o levou a cancelar a turnê norte-americana que faria este ano.

Tomado de inspiração, porém, Ozzy proporcionou uma das maiores surpresas que podia dar aos fãs: o lançamento de um novo álbum. O trabalho é resultado do ócio do período de recuperação pelo qual precisou passar. Em uma entrevista dada recentemente, o Príncipe das Trevas revelou que trabalhar no processo de criação de Ordinary Man foi uma espécie de salvação para o músico, ajudando-o a enfrentar e superar essa fase tão conturbada.

“Este álbum foi um presente do meu poder superior. Para mim, é uma prova de que você nunca deve desistir. [o álbum] surgiu do nada, e foi muito divertido. Era o que eu precisava para me tirar da minha tristeza, destruição e recuperação.”

“Chegaram e trabalharam [Duff McKagan e Chad Smith] nas músicas com jams durante o dia. Antes, eu disse para Sharon [Osbourne, esposa e empresária] que deveria fazer um álbum, mas eu pensava: ‘não tenho forças’. Porém, Andrew [produtor] trouxe essa força de mim”.

“Eu pude dar um tempo na ‘No More Tours’ e me concentrar no disco. Apesar da saúde ruim, o álbum me ajudou a não perder a cabeça”.

Veja também: Ozzy Osbourne faz revelação sobre seu estado de saúde: “Melancolia e desgraça”

Numa tentativa de voltar às origens, Ordinary Man é o 12º disco de estúdio da carreira solo do artista lançado em fevereiro de 2020 que representa não somente o primeiro trabalho do músico depois do lançamento de Scream, há 10 anos, mas, também, uma nova fase de Ozzy, que, porém, desagradou a muitos.

Confira abaixo opiniões críticas de alguns reviews após o lançamento de Ordinary Man no início do ano:

NME

“[Ozzy Osbourne] não é mórbido. É macabro – obcecado com a morte, o horror, caveiras, sangue – mas sempre foi muito apaixonado pela própria vida. Inegavelmente emocionante [alusão aos amigos do músico que já morreram enquanto ele continua vivo]. A faixa [It’s A Raid] sinaliza seu desejo duradouro pela vida e vontade de experimentar coisas novas. Ele já fez mais pela música e pela cultura popular do que qualquer um”.

LouderSound

“As 11 músicas são cheias de propósito. Todas as funções corporais podem ser afetadas por esse álbum visceral e emocionalmente nu”.

The Times UK

“A voz de Ozzy ainda soa bem aos 71 anos e, ocasionalmente, ele recupera o poder fantástico que remonta à gloriosa era dourada do Black Sabbath. o dueto com Elton John é um verdadeiro momento de lágrimas liderado por pelo som de um piano e uma cortina se fechando”.

Ordinary Man: superbanda e participações

O mais recente trabalho de Ozzy Osbourne conta com uma banda formada pelo guitarrista Andrew Watt (produtor do disco e que tocou ao lado de Glenn Hughes no California Breed), pelo baixista Duff McKagan (Guns N’ Roses) e pelo baterista Chad Smith (Red Hot Chili Peppers). Além disso, o álbum conta com participação de nomes como Slash (Guns N’ Roses), Tom Morello (Rage Against the Machine), Elton John, Post Malone, Travis Scott e Charlie Puth.

Lembrando que Zakk Wylde foi substituído em estúdio, porém segue como parceiro do Madman nos palcos. Além disso, o Príncipe das Trevas ainda conta com Blasko (baixo), Tommy Clufetos (bateria) e Adam Wakeman (teclados e guitarra base) na formação oficial de turnê.

Ordinary Man: o que cada faixa revela

Straight To Hell

O novo disco do Madman, que possui um total de onze canções inéditas e uma duração de 49 minutos, é iniciado pela faixa “Straight To Hell”, a qual possui um coro seguido de um riff pesado acompanhado de uma letra típica de Ozzy. A introdução da música revela ecos de Black Sabbath: “Allright, now!” e “Come on, now!” são homenagens conscientes aos tempos de ouro.

“O single ‘Straight to Hell’ tem um Slash clássico solando – com wah wah, ao estilo bluesy, ótimo. Mas queríamos mesmo que ele tocasse na faixa-título, ‘Ordinary Man’, que é mais lenta, meio Beatles… Ozzy ama Beatles, é a banda favorita dele, fala sobre Beatles a todo momento. Dá para acreditar nisso, vindo do Prince of Darkness?”, disse Chad Smith.

Under The Graveyard

Umas das coisas que mais chamam a atenção no disco é a faixa “Under The Graveyard”, que possui uma sonoridade não-tradicional de Ozzy e cuja cadência é mais melodiosa e melancólica. Para muitos, é considerada uma das mais fracas do álbum, mas parece mesmo apresentar um todo bastante agradável quando se consome os quase 5 minutos de música. Ela conta com o solo de um riff marcante no minuto final da música, o que acrescenta positivamente. O clipe mostra quando o artista deixou o Black Sabbath, em 1979, e se afundou nas drogas, até ser resgatado por Sharon.

All My Life

Outra faixa a compor o álbum é “All My Life”, cuja melancolia alterna entre momentos mais leves de reflexão e momentos mais intensos. É, por assim, dizer, muito mais semelhante às músicas do álbum “Diary Of Madman”, de 1981, o que deve agradar a muitos.

Ordinary Man: faixa homônima

“Ordinary Man”, faixa de mesmo nome que intitula o álbum, possui uma cadência muito mais leve e emotiva. A faixa, que conta com a participação de Elton John nos vocais e no piano, revela uma certa influência dos Beatles. Aqui, o que mais chama a atenção é o tom que a música revela, principalmente em frases como: “Don’t forget me as the colors fade, when the lights go down, it’s just an empty stage” (não me esqueça enquanto as cores desbotam. Quando as luzes se apagam, é apenas um palco vazio).

“Ele falou que precisávamos de algo assim, não tão pesado. Então, Andrew trouxe essa ideia no piano e a transformamos nessa música, que ficou épica. Slash toca o solo. É tão épica que tem dois solos de Slash (risos). É uma música muito boa. Ele toca de forma bela, estamos felizes de tê-lo envolvido”, afirmou o baterista do Red Hot Chili Peppers.

Eat Me e Today is The End; Scary Little Green Men e Holy For Tonight

“Eat Me” e “Today is The End” são duas outras faixas de Ordinary Man que possuem sonoridade semelhante entre si e marcam com seus refrões. A primeira, sem dúvidas, é um dos pontos altos do álbum, principalmente porque remete a Black Sabbath. Aspectos como a gaita canastrona nos faz associá-la a ‘The Wizard’, além de que seus riffs parecem ter sido feitos por Tony Iommi e Geezer Butler. Já a segunda é uma semi-balada agradável de se ouvir.

“Scary Little Green Men”, que contou com participação do guitarrista Tom Morello, do Rage Against The Machine, possui um dos melhores refrãos já criados por Ozzy. Além disso, “Holy For Tonight” é, digamos, uma balada de classe, com uma produção muito elaborada e letra que evidencia a temática da morte. A faixa marca o que poderia ser chamado de “tracklist normal” de “Ordinary Man”.

Goodbye

“Goodbye” é uma faixa que começa mais arrastada. Semelhante a “Iron Man” no que diz respeito ao início, se aproxima bastante também de “Never Say Die”, música do álbum de mesmo nome do Sabbath, de 1980, principalmente por se tornar mais acelerada na segunda metade da faixa. A progressão de acordes remete ainda à “Painted On My Heart” do The Cult.

O candeciamento final mais acelerado traz contornos doom à música, mostrando que Andrew Watt, Duff McKagan e Chad Smith buscaram beber muito da fonte do Black Sabbath.

It’s Raid

“It’s Raid” talvez seja uma das surpresas mais positivas do álbum do Príncipe das Trevas, principalmente por se apresentar quase como um hardcore por seu caráter acelerado. A música conta com a participação de Post Malone e se revela mais agressiva num primeiro momento e, na segunda metade, se permite a um cadenciamento mais evidenciado. A música conta com bela troca da dupla, cujos vocais propõem berros muito pertinentes e clássicos do bom e velho rock’n’roll, além de um riff cujo dedo executor é nada mais nada menos que o de Slash.

Além disso, destaque-se a letra escrita por Ozzy Osbourne, que, com aquela dose de polêmica de sempre, canta “Deus é, na verdade, Satã”. 

Take What You Want

Por último, deixamos “Take What You Want”, uma das maiores surpresas do lançamento. Para pessoas mais críticas, essa é uma faixas que representam o trabalho irregular do músico em seu mais novo trabalho. Outras, porém, vêem na faixa uma das inciativas sonoras mais inovadoras de Ozzy, que decidiu, através de uma parceria com os rappers Post Malone e Travis Scott, empreender uma canção que está muito mais alinhada com o universo sonoro dos convidados.

A orientação pop/hip hop cuja construção melódica revela uma tentativa experimental em meio à carreira não me decepcionou como a muitos. Eu, particularmente, achei a música muito bem construída e aposto no sucesso dessa parceira tripla. Acredito, porém, que trabalhos como esse não devem ser o destaque absoluto em produções de artistas como Ozzy, cujo gênero é distinto, apostando, assim em sua maioria, em músicas que fogem quase que completamente do gênero original do artista em questão, o que, porém, não foi o caso. Ozzy, acredito, foi feliz em “Take What You Want” como uma aposta de se lançar ao novo, respirando, portanto, novos ares sonoros, o que é importante para o rejuvenescimento musical.

Quinteto poderoso

Há, ainda, uma coisa bastante importante a se ressaltar de faixas como “Straight to Hell” e “Goodbye”, além do trio “All My Life”, “Ordinary Man” e “Under the Graveyard”. Note que o quinteto, o ponto forte do trabalho e algumas das melhores músicas dos últimos anos do Madman, vem acompanhado por uma carga emocional muito grande, principalmente no que diz respeito a uma alçada autobiográfica do cantor, em que Ozzy parece refletir sobre o que viveu até então e sobre como tem construído a sua história. Eu, particularmente, acredito muito nesse tipo de iniciativa como algo necessário, especialmente para um artista de 70 anos. Isso mostra que a intenção de se permitir ao novo foi algo realmente planejado por Ozzy na execução de Ordinary Man,.

Ordinary Man: uma aposta bem-sucedida do novo sem abrir mão da essência

Sendo assim, não é exagero nenhum dizer que este é um dos grandes – se não o maior – lançamentos da discografia do Príncipe das Trevas nas duas últimas décadas. Apesar de ter visto algumas críticas afirmando que “Ordinary Man” era um trabalho irregular, acredito que a mais recente produção do artista de 70 anos é, sem dúvidas, ousada, inovadora, mas sem deixar de lado a essência que marcou a carreira do metaleiro até hoje. O legado de mais bem-sucedido trabalho da história do lendário vocalista do Black Sababth em carreira solo com certeza se firmará nos próximos anos.

O que mais deixa os fãs do lendário vocalista felizes é o fato de ele afirmar que pretende trabalhar novamente com o produtor Andrew Watt. Segundo Ozzy, “quando eu escrevo discos e dou risadas fazendo isso, é um disco melhor”. Sem dúvidas, o fato de ele ter se divertido com Watt durante a produção de Ordinary Man contribuiu em muito não só para o lançamento de um novo material, mas que este tivesse o selo Ozzy de qualidade.

A verdade é que por mais que muitos da mídia insistam em aposentar Ozzy Osbourne, o Príncipe das Trevas segue firme e forte, lutando contra as eventuais adversidades referentes à saúde e produzindo músicas de alta qualidade. Portanto, confira “Ordinary Man” abaixo e desfrute de uma dos melhores álbuns do eterno frontman do Black Sabbath e godfather of heavy metal Mr. Ozzy Osbourne.

“Foi ótimo poder fazer algo. Caso contrário, eu estaria na cama, pensando que jamais voltaria a andar. O álbum me moveu a fazer algo e me sentir bem. Foi simples, foi como gravar uma sessão de estúdio. Não é um disco do Pink Floyd, onde você precisa estar chapado de ácido para apreciar – apenas dê a p*rra do play e vá em frente”, contou o Madman, em entrevista à Kerrang!.

Veja também: