“Amor, respeito, afeto e coragem são coisas que precisamos para enfrentar a vida”

Ser uma pessoa apaixonada e dedicada na arte de criar o próprio filho não deveria ser suficiente para você ser chamado de pai? Thammy Miranda, ao lado de sua esposa Andressa Ferreira, vive algo que mostra que não é bem assim que a coisa funciona. E aqui o fato dele ser um homem trans, ou seja, se identificar como homem, faz toda a diferença nessa concepção social que nos é imposta a todo custo. Possuir uma identidade de gênero não-binária no Brasil é tido como abominável por muita gente, principalmente por líderes religiosos, que encontram aqui mais uma oportunidade de se autopromover. A gritaria causada por parte de muitos representantes de igrejas só mostra o quão preconceituosas são as instituições religiosas e quão distantes estão daquilo que elas mesmas pregam e dizem acreditar. Mas a hipocrisia é uma especialidade do brasileiro, não é mesmo? Muito embora toda essa indignação contra a liberdade não seja minimamente aceitável, pessoas transgêneras são obrigadas a lidar com o preconceito que existe diariamente.

Oficialmente pai desde o dia 8 de janeiro deste ano, Thammy Miranda, filho de Gretchen Miranda, é um homem trans casado com Andressa Ferreira desde 2018, com quem teve o pequeno Bento. Recentemente, Thammy recebeu um convite da Natura para estrelar uma propaganda de Dia dos Pais, a notícia, no entanto, acabou sendo recebida com muita agressividade na internet, onde muitos internautas passaram a questionar o “modelo de pai” que a empresa de cosméticos utilizou em sua campanha. Mas, o que devemos aprender com toda essa repercussão e o porquê da transfobia ser um problema para o qual todos nós devemos abrir os olhos?

Thammy Miranda e a transfobia o que aprender sobre o preconceito contra transexuais e como nao ser um completo idiota 9

Só para você entender a importância e urgência do assunto, uma mulher trans ou travesti é assassinada no Brasil dentro de um intervalo de 48 horas. De acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a transfobia fez um número ainda maior de vítimas em 2020 quando comparamos com o mesmo período do ano passado, a saber, o primeiro semestre. Essa, porém, é uma realidade alarmante que ainda está longe de ser combatida de forma efetiva, principalmente por nossas autoridades governamentais.

Se pararmos para pensar no episódio que envolve o Thammy Miranda, perceberemos que a campanha para a qual o ator de 37 anos foi convidado ainda contava com o ex-BBB 20 Babu Santana e outros influencers, esse fato, porém, não poupou críticas à maior multinacional brasileira de cosméticos. Ao trazer uma representatividade transgênera à propaganda, ele passou a receber diversas mensagens de ódio nas redes sociais, principalmente mensagens que pediam que a empresa utilizasse outros modelos de pais, inclusive Marcos Mion, que não tinha absolutamente nada a ver com a história.

O problema aqui não é necessariamente ser conservador, vai muito além disso. Em tese, esse deveria ser um valor praticado na sociedade na esfera pessoal e que, no entanto, não deveria agredir a liberdade de ninguém. Aqui no Brasil, porém, a gente sabe que as coisas não funcionam nada bem. E foi exatamente assim que aconteceu: mais uma vez, é possível comprovar o quão transfóbica é a nossa sociedade e o quão hipócritas conseguem ser as pessoas.

Uma sociedade extremamente religiosa, como a que temos em nosso país, resolveu contestar a participação de Thammy Miranda na campanha, como se ele não fosse um exemplo de pai. Aí, é que eu te pergunto: qual o modelo de paternidade no Brasil? Bem, se formos considerar os 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no documento ou os 11,6 milhões de lares chefiados apenas por mães solo de 2017, não é de se estranhar que esses brasileiros auto denominados ‘cidadãos de bem’ e ‘família tradicional brasileira’ estejam incomodados com a representatividade paterna de Thammy, um pai presente e responsável, mas que cuja sexualidade é fortemente contestada.

É justamente esse ponto que questionamos: porquê de nossa sociedade ser tão perversa pedindo boicote a uma campanha que, ao buscar dar espaço à representatividade, neste caso a transgênera, busca quebrar o padrão de paternidade idealizado por nossa sociedade convencional. Pai não é quem dá amor e carinho a quem pode chamar de filho, afinal? A transfobia é um câncer social que precisa, assim como tantos outros problemas, ter suas discussões fortemente ampliadas para que possamos começar a cogitar mudanças significativas neste cenário tão absurdo que envolve essa minoria social.

Essa onda de reações negativas e de violência atestam muito bem como é parte da nossa sociedade. Essas pessoas, preconceituosas como são, ao invés de se incomodarem com coisas como machismo e racismo, voltam suas atenções para um fato como esse. O que sabemos é que a nossa sociedade não consegue engolir a ideia de Thammy ser um exemplo de pai, coisa que muitos deles não são. A realidade cotidiana e os números que já destaquei aqui atestam suficientemente isso.

O mais incrível de tudo é que a campanha publicitária da Natura escolheu “pai presente” como mote em 2020, buscando abordar, assim, a relação entre pais e filhos e tudo o que gira em torno das descobertas e transformações de ambos.

Em contrário a essa onda transfóbica dos últimos dias, porém, muitas pessoas resolveram se manifestar em favor de Thammy e da campanha da Natura. Desde anônimos a famosos, muitas delas se indignaram com tamanha quantidade de ataques recebidos por Thammy desde que o anúncio da campanha foi feito nas redes sociais da empresa de cosméticos.

“Eu acho que essa campanha é importante como um todo. Demonstra que o que está prevalecendo é o amor, independente de gênero e sexualidade” (Thammy Miranda)

IDENTIDADE DE GÊNERO E A NECESSIDADE DO COMBATE À TRANSFOBIA

Diferentemente de orientação sexual, identidade de gênero diz respeito aquilo que a pessoa vê quando se enxerga. Sendo assim, as pessoas podem não se identificar com o gênero atribuído a si no nascimento. É importante ressaltar ainda que identidade de gênero não é uma ideologia que pode ser ensinada, mas algo que diz respeito a quem verdadeiramente é um indivíduo.

Nesse sentido, a transfobia é algo que precisa ser combatido na sociedade. E isso vem através da informação!

Identificar pertencer a um gênero diferente do padrão significa ter de enfrentar uma verdadeira luta para viver numa sociedade como a que temos no Brasil, onde casos de transfobia são recorde mundial: mais de 800 travestis e transexuais foram mortas no país nos últimos 8 anos.

Já pensou viver sabendo que o tempo médio da sua vida é de apenas 35 anos? Bizarro, não é mesmo? O dados da ONG Transgender Europe (TGEu) revelam cada vez mais uma necessidade de urgência sobre o que vem acontecendo com essa parcela da população e ressalta a importância de impedir essa invisibilização social.

Como um tabu que precisa ser quebrado, a transfobia é, sobretudo, um crime, além de uma destas questões de gênero que precisa estar no imaginário do brasileiro como problema que precisa ser combatido por todos nós, somente assim podemos esperar mais igualdade no que diz respeito à identidade de pessoas trans.

Felipe Neto se oferece como garoto propaganda da Natura

DIGA NÃO AO PRECONCEITO. DIGA NÃO À TRANSFOBIA

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Registramos aqui a nossa solidariedade ao Thammy Miranda e à sua família, que vêm sendo atacados covardemente. Repudiamos qualquer forma de preconceito e nos disponibilizamos em ajudar a disseminar informações que ajudem no combate ao crime de transfobia no Brasil. Como diria Lulu Santos, “consideramos justa toda forma de amor”.

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