“The Boys In The Band” adapta a peça de Mart Crowley e se passa durante uma noite de 1968. Um grupo de amigos se reúne na casa de Michael (Jim Parsons) para celebrar o aniversário do Harold (Zachary Quinto). Porém, eles recebem a inesperada visita de Alan (Brian Hutchinson), que altera toda a dinâmica da festa.

O longa está disponível na Netflix.

Uma boa adaptação

“The Boys In The Band” entende muito bem como transpor uma peça de teatro para o cinema sem abrir mão da linguagem da sétima arte. Claro que o envolvimento de Mart Crowley com projeto, além da direção de Joe Mantello (diretor que teve sucesso no teatro) e do elenco atual da peça, ajudam a fazer essa transição. Entretanto, ainda assim, é fascinante como Mantello consegue criar um jogo de encenação complexo e ao mesmo tempo muito simples.

Como em uma peça de teatro, o longa se passa quase que completamente em um cenário – o apartamento do Michael – e, dessa forma, o desenvolvimento da trama vai ser basicamente texto e atuação. Mas essa simplicidade ganha força na encenação quase íntima do elenco, capaz de nos fazer acreditar que aquelas pessoas realmente são amigos próximos e que conhecem muito bem a personalidade dos outros.

Por isso, nada mais lógico do que o desequilíbrio das relações partirem de um agente externo: Alan, homem heterossexual e preconceituoso que não sabe da sexualidade dos demais. A sua presença cria uma atmosfera de constrangimento no grupo de amigos, ao mesmo tempo que desperta uma sucessão de relações pessoais mal resolvidas entre os presentes. É nesse momento que Mantello mostra a sensibilidade para transitar entre o divertido primeiro ato para o desconfortável segundo ato até o melancólico clímax.

Mas claro que isso também é mérito do elenco, já que todas as ações, diálogos e monólogos são feitos com grande naturalidade. E é justamente nessas linhas de diálogos e na criação daquele ambiente, que funciona quase como um microcosmo independente, que o diretor retorna as suas origens teatrais. Enquanto isso, a montagem que rompe o espaço para focar no íntimo de cada um, unido aos pessoais flashbacks, retoma a linguagem cinematográfica, criando assim uma combinação poderosa.

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Personagens

Todavia, mais do que o roteiro e a direção, o que dá forma para essa nova versão cinematográfica de “The Boys In The Band” é o cuidado que o roteiro tem ao criar personagens singulares e complexos. Conhecemos todo o passado e os pensamentos mais profundos de cada um dos oito personagens do grupo, desde o mais extrovertido, porém não menos amargurado, Emory (Robin de Jesús), até o menos resolvido e mais introspectivo, Michael. Além disso, Alan é muito mais do que apenas o intruso, entendemos também de onde vem sua repressão sexual e qual é sua verdadeira paixão.

Só que como é comum em qualquer bom roteiro, não conhecemos apenas a individualidade de cada um, mas também as relações entre eles. Perceba como o longa é capaz de criar interações diferentes entre cada um dos personagens, não só as mais próximas e abrangentes, como a de Michael e Harold e Larry (Andrew Rannells) e Hank (Tuk Watkins), mas todas as demais, desde a festa do primeiro ato até o jogo do telefone que surge para criar mais tensão na trama.

Mesmo Donald (Matthew Boomer), que tem menos espaço e proximidade para se relacionar com todos ali presentes, consegue ser efetivo ao criar o personagem mais bem resolvido do longa. O único que realmente sofre nas mãos do roteiro é o estereotipado e propositalmente deslocado Cowboy (Charlie Carver), que fica restrito a ser o personagem burro.

Assim, “The Boys In The Band” consegue se destacar como adaptação e remake, ainda que seja bem semelhante ao filme de 1970, dirigido por William Friedkin, um dos melhores diretores da transgressora Nova Hollywood.

Nota: 7.5

Assista ao trailer:

Ficha Técnica:

Título original: The Boys In The Band
Data de lançamento: 30 de setembro de 2020
Direção: Joe Mantello
Elenco: Jim Parsons, Zachary Quinto, Matthew Boomer mais
Gêneros: Drama, comédia
Nacionalidade: EUA