“Mulan” é a versão live-action da animação de 1998. O filme se passa na China e conta a história de uma garota que se passa por homem para ingressar no exército chinês e assim poupar a vida de seu pai, que havia sido convocado. Além de não revelar sua identidade, ela tem a missão de salvar o seu país de uma ameaça externa.

Devido à pandemia, o longa, que seria lançado nos cinemas, estreou direto para aluguel no Disney+, serviço de streaming da Disney, pelo salgado valor de U$29,00. A plataforma só chega ao Brasil em novembro.

Mulan e outros remakes em live-action

Toda vez que um remake é lançado uma pergunta deve ser feita: o que ele tem a acrescentar? Não faz sentido um filme ser apenas uma cópia praticamente literal de outro já existente, mas é justamente isso que vimos aos montes ao longo da história do cinema. São raros os casos de remakes ou reboots que realmente renovam a obra original de alguma forma. Na maioria das vezes, os estúdios usam a desculpa “apresentar a obra para um público jovem”, mas, na verdade, o objetivo é ganhar dinheiro sem precisar criar nada novo.

Então chegamos à Disney. Como escrevi na crítica do desastroso “Artemis Fowl”, a Disney é de longe o estúdio hollywoodiano que atualmente dá menos espaço para o novo. A empresa vem se aceitando como uma produtora quase que exclusiva de sequências de animações e remakes em live-action, sendo estes cópias com pessoas (ou até sem pessoas, como é o caso de “Rei Leão”, que não é realmente um live-action) de suas animações clássicas. É um apelo claro à nostalgia, um dinheiro fácil que usa como pretexto à falsa ideia de agregar um público mais jovem às essas animações.

Longe de ser enganado, parece rolar um acordo mútuo entre o público e o estúdio. É quase como se as pessoas clamassem por aquilo que já viram um milhão de vezes e a produtora fizesse a sua vontade. Isso fica mais evidente quando analisamos a bilheteria de remakes como “Rei Leão”, “A Bela e a Fera” e “Aladdin”, versões com pouquíssimos acréscimos ou mudanças às originais.

Entretanto, chegamos a um caso que se difere em parte dos citados acima: “Mulan”. Devido ao enorme público da China aguardando à obra e a possibilidade de fazer uma excelente bilheteria no país, a Disney permitiu se afastar um pouco da animação e se aproximar mais do conto chinês, ainda que não seja exatamente fiel à sociedade do país naquela época. A bajulação fica ainda mais clara se observarmos a presença de grandes nomes do cinema chinês como Jet Li e Donnie Yen apenas em pontinhas, numa clara tentativa de chamar o público do país.

E o resultado é a segunda melhor adaptação para live-action de uma animação do estúdio, atrás apenas do excelente “Mogli”. Não que isso fosse tarefa tão difícil, é verdade, já que o nível de seus concorrentes não era dos melhores. Porém, como era de se esperar, o filme não agradou ao público nostálgico que busca a mesmice.

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Uma lenda chinesa… mas nem tanto

Desde a narração em off na abertura, “Mulan” se aceita como um conto transposto para tela. Somos informados desde o início que assistiremos a criação de uma lenda, uma guerreira que quebrou todos os paradigmas. Dessa forma, vemos uma narrativa que se apoia muito no wuxia, gênero tipicamente chinês que mistura fantasia, artes marciais, kung fu, misticismo e sempre é contado como se fosse uma lenda.

O tom contemplativo e menos lúdico cria uma atmosfera mais mística, sobretudo com a criação da Bruxa (personagem que não existe na animação), e menos hollywodiana, abandonando assim as músicas, o romance jovem e Mushu (o grilo aparece aqui apenas como um personagem humano secundário). Se para muitos essas mudanças podem soar ultrajante, já que o personagem é a melhor coisa da animação, eu gosto da alteração por permitir um tom novo à narrativa e porque Mushu jamais seria um personagem tão interessante em um live-action.

Então, somos convidados a acompanhar a história dessa guerreira por uma China medieval bastante crível, graças ao belo trabalho de design de produção (que só peca um pouco no exagero dos efeitos digitais), no qual a força feminina se sobressai por meio de uma protagonista carismática, destemida e poderosa. Ao mesmo tempo, se o grande vilão é tão genérico quanto o da animação, temos a dúbia figura da bruxa, que agrega à narrativa por ser complexa e adicionar camadas à jornada de Mulan. Por meio dela vemos uma crítica a não aceitação do diferente, algo que se faz presente diariamente em nossa sociedade.

Por outro lado, é aí que surge um dos maiores problemas do longa. Ao trazer o chi como novidade, o filme já apresenta uma Mulan poderosa desde o primeiro segundo da rodagem. Se esse fator possibilita a inserção fantasiosa necessária para a obra adicionar elementos de wuxia, por outro, ele tira o peso da conquista de Mulan. Semelhante ao que aconteceu em Star Wars com a adição dos midi-chlorians e com a revelação de Rey ser descendente de Palpatine no terrível “Star Wars: Ascensão Skywalker”, Mulan deixa de conquistar seu espaço por meio de um treinamento árduo (como ocorre na animação) e passa a receber isso por ser uma escolhida quase divina.

Tal escolha do roteiro ignora a força inclusiva que a animação tinha de que qualquer um pode chegar lá. Mais do que isso, essa mudança joga contra a própria mensagem que o live-action quer passar de uma mulher lutando para conquistar seu espaço em uma sociedade controlada pelos homens. Aqui, isso só é possível se você tiver uma força mística desde o seu nascimento.

Além disso, focar em um força pessoal tira peso do treinamento, que é justamente o momento em que Mulan começa a se aproximar de seus companheiros de batalha. Por isso, a animação consegue criar personagens secundários cativantes, enquanto o remake só os mantém por mera convenção.

Felizmente, a falta de química da personagem para com seus companheiros torna a decisão final do longa possível. Sem dúvida, a mudança da escolha final de Mulan é muito mais poderosa no live-action do que na animação, sendo essa o maior problema do longa de 1998.

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Uma lenda chinesa… mas nem tanto

Todavia, como em todos os filmes da Disney, “Mulan” tem seu processo criativo afetado pelo mercadológico. O longa adere mais fortemente à cultura e ao cinema chinês, mas não permite que isso seja concretizado totalmente. Assim, a obra acaba ficando no meio do caminho e não consegue ser totalmente uma lenda chinesa. Ele é meio wuxia, meio filme da disney, o que é compreensível, já que o estúdio busca torná-lo agradável para o público mundial. Porém, dessa forma, “Mulan” não consegue ser original como sugeria inicialmente e acaba combinando estilos muito distantes de uma forma não natural.

Por isso, o longa apresenta problemas graves de roteiro e montagem. São muitos os momentos em que o filme sai de seu rumo para copiar cenas da animação, sabendo que isso agradaria aos fãs. Só que essas escolhas, muitas vezes protocolares, criam cenas que perde completamente o sentido.

Um bom exemplo disso é a que Mulan e seus companheiros lutam contra o exército invasor. A cena começa com uma das boas sequências de ação que o filme apresenta. Entretanto, toda a lógica espacial e temporal estabelecida na cena se perde quando o roteiro e a montagem precisam criar malabarismos para adicionar um momento chave da animação: a protagonista vencendo os rivais com uma avalanche. Observe que nem existia uma montanha com neve no local, ela surge por pura conveniência para agradar aos fãs do de 1998.

Mas, apesar dos diversos problemas, “Mulan” surge para trazer um frescor aos remakes em live-action da Disney. É uma pena que a recepção do público possa prejudicar tanto o longa quanto futuras produções. Eu nunca entenderei esse prazer de ver uma cópia com atores do filme original.

Nota: 6.5

Assista ao trailer:

Ficha Técnica:

Título original: Mulan
Data de lançamento: 4 de setembro de 2020
Direção: Niki Caro
Elenco: Liu Yifei, Donnie Yen, Jet Li mais
Gêneros: Aventura, Épico
Nacionalidade: EUA