É inegável que os “anos dourados” do rock ficaram em algum momento lá no passado. É inegável também que o rock em Brasília, por exemplo, é responsável por grande parte do legado e da força do gênero mesmo que ele tenha sido ofuscado ao longo dos anos e já não tenha o mesmo destaque na mídia. Hoje, o topo das paradas é composto por aquilo que dá lucro e que tem sido altamente consumido pelo público, o que não quer dizer que uma data como a de hoje, quando se comemora a importância do Dia Mundial do Rock, tenha que passar despercebida. Muito pelo contrário, se você é um verdadeiro fã do gênero, tem plena consciência de que o rock continua vivíssimo.

Não viemos destacar aqui, porém, nenhuma banda contemporânea. Como sabemos, o rock tem vivido mais de seu próprio legado histórico do que das bandas de hoje propriamente ditas e, embora sempre surjam novas propostas com a originalidade do gênero e novos traços e influências, sabemos que o que fez sucesso e que esteve na ponta da língua do grande público há algum tempo é ainda o que temos de mais forte na representatividade desse gênero musical que pulsa rebeldia e subversão.

Caminhando lenta e novamente para o lugar em que merece estar, a saber, o de grande destaque, a esperança é que o rock volte a ser em um futuro breve o que já fora um dia e tome o mundo numa espécie de onda arrebatadora. Enquanto isso não acontece, nos resta acompanhar o surgimento das novidades e olhar de forma nostálgica para tempos em que as coisas eram mais favoráveis para os amantes das músicas de sons distorcidos e agressivos.

E foi justamente uma dessas grandes bandas a maior responsável por influenciar o surgimento de um quarteto feminino na capital gaúcha nos anos 1960 que ganhou destaque pela representatividade feminina de uma composição formada apenas por integrantes mulheres: fãs dos Beatles, as quatros garotas gaúchas deram origem As Andorinhas, revelação do rock feminino de Porto Alegre.

AS ANDORINHAS (1ª Formação)

  • Vera Maria Célia (baixo)
  • Yoli Planagumá (bateria e voz)
  • Rose Marie Porto Alegre Pereira (guitarra solo)
  • Nubia Maria Abreu Friedrich (guitarra base)
Conheça As Andorinhas, a banda precursora do rock de Porto Alegre formada só por mulheres

Foto no Estádio dos Eucaliptos (Porto Alegre) – Acervo de Yoli Planagumá

AS ANDORINHAS (2ª Formação)

  • Loreta Rodrigues (bateria e voz)
  • Glaucia (baixo)
  • Rose Marie Porto Alegre Pereira (guitarra solo)
  • Nubia Maria Abreu Friedrich (guitarra base) 
Conheça As Andorinhas, a banda precursora do rock de Porto Alegre formada só por mulheres

Foto na TV Piratini (Porto Alegre) – Acervo de Yoli Planagumá

As adolescentes do bairro Menino Deus, na cidade de Porto Alegre, resolveram criar uma banda de rock. Por si só, talvez o fato não chamasse tanta a atenção, mas o fato de o grupo ter sido o pioneiro na época composto só por mulheres desperta a nossa curiosidade. O peso da influência do quarteto de Liverpool foi determinante para que o quarteto de Porto Alegre ganhasse forma e saísse do aspecto do planejamento, dando forma ao que ficou conhecido por “As Andorinhas”. Yoli, que ainda fez parte de bandas como As Brasas e Pentagrama, além de seguir carreira de cantora, comentou sobre…

“Ensaiávamos pra caramba! Dividíamos o sonho de fazer músicas como as dos Beatles e viver a vida de artistas. Queríamos ser muito boas”.

Era na Rua Silveiro que aconteciam os ensaios do quarteto. Em geral, as reuniões aconteciam ou na casa de Rose ou na garagem de Nubia e sua duração chegava a se estender das 14h às 22h. Em média, elas se encontravam três vezes por semana e o ambiente era marcado pelo bom relacionamento entre as integrantes.

“Discutíamos sobre música, sobre acordes. Tirávamos as canções de ouvido, escutando na vitrola. Fazíamos revezamento, cada uma ouvia individualmente a música no aparelho para tentar aprender a sua parte”

As apresentações, que duravam em média 1h e eram basicamente pautadas em covers, principalmente dos Beatles, se davam em eventos na escola onde estudavam, em bailes e em um evento no antigo Estádio dos Eucaliptos. A banda esteve ainda em programas na TV Piratini e na Rádio Difusora.

“Vestíamos calça preta, camisa branca, coletinho vermelho e uma botinha preta. Uma gravatinha twist na camisa. Não era ainda muito comum na época as mulheres usarem calça comprida. Não iam assim para todo lugar”.

Representatividade feminina no rocknroll

Apesar de o legado da banda não ter sido tão grande assim, principalmente pelo fato de não ter produzido músicas autorais e nenhum registro sequer ter sido feito das performances do grupo, As Andorinhas marcaram a história do rock nacional com a importância e a representatividade da sua iniciativa.

Todos sabemos que, de uns tempos pra cá, as mulheres passaram a encontrar uma certa resistência dentro da música, mas o mais curioso no caso do grupo de Porto Alegre é que a banda não tivera situações constrangedoras somente pelo fato de serem mulheres em uma banda de rock. Essa é uma garantia de Nubia e Yoli, duas das componentes da primeira formação da banda.

Ao contrário disso, o grupo era visto como sinônimo de algo positivo e exótico, muito embora estivéssemos apenas nos anos 1960. Sendo assim, o destaque da banda se deu principalmente por ser a primeira cuja formação era integralmente feira por mulheres não só em Porto Alegre, mas também no Rio Grande do Sul e, se duvidar, no Brasil inteiro.

“Me sentia importante por fazer parte de uma banda feminina, principalmente porque era inovador para uma mulher tocar guitarra naquela época. Uma recordação muito boa. Uma adolescência mais pura. A música é uma coisa que te dá muitas recordações. A música em si… é vida”

Sendo assim, se olharmos de forma mais crítica para a nossa sociedade, podemos almejar uma convivência mais igualitária, em que o machismo não seja a mola propulsora das relações. Houve um tempo em que as mulheres não eram julgadas como passaram a ser ao longo do tempo apenas por quererem ser felizes tocando em uma banda de rock e tendo o mesmo direito dos homens. E é isto o que desejamos hoje em dia: liberdade para se produzir música sem qualquer distinção.

Fica aqui, portanto, a nossa homenagem à banda As Andorinhas e desejamos que muitas outras bandas de rock feminino possam se espelhar nessas mulheres incríveis que mostram que o rock n roll também é coisa de mulher.

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